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    Expoente do surrealismo, Man Ray ganha exposição inédita no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte

    Pela primeira vez no Brasil, 255 obras do artista serão apresentadas ao público a partir de 11 de dezembro

    As Lágrimas, 1932 - Impressão em gelatina e prata, 1976 Man Ray

    Fotógrafo, pintor, escultor, cineasta... são vários os atributos de Man Ray, um dos maiores artistas visuais do início do século XX e expoente do movimento surrealista. E é parte de sua história criativa - um recorte significativo de seu trabalho - que os belorizontinos poderão conhecer a partir de dezembro na exposição “Man Ray em Paris” apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte. Quase 130 anos após seu nascimento o público brasileiro poderá conferir 255 obras do artista ainda inéditas no país, entre objetos, vídeos, fotografias e serigrafias de tamanhos variados – de 40x30 a 130x90 cm – desenvolvidas durante os anos que viveu em Paris, entre 1921 e 1940, seu período de maior efervescência criativa. A mostra chega a Belo Horizonte depois de passar pela unidade do CCBB em São Paulo, e ficará em cartaz entre 11 de dezembro de 2019 e 17 de fevereiro de 2020. A realização é da Artepadilla e o projeto conta com patrocínio do Banco do Brasil e do Ministério da Cidadania. 

    Com curadoria de Emmanuelle de l’Ecotais, especialista no trabalho do artista e responsável por seu Catálogo Raisoneé, a mostra que poderá ser vista no CCBB BH será dividida em duas categorias. A primeira trata da fotografia como um instrumento de reprodução da realidade, focando-se em seus famosos retratos - seu ateliê era uma referência entre a vanguarda intelectual que circulava pela Paris da década de 1920 - nos ensaios para a grife de Paul Poiret e em fotos para reportagens. Já na segunda, outro lado se revela: o da manipulação da fotografia em laboratório com o intuito de criar superposições, solarizações e “rayografias”, um termo criado por Man Ray (do inglês “rayographs”), em alusão a si mesmo. Assim, portanto, ele inventa a fotografia surrealista.

    O projeto da exposição prevê, ainda, reproduzir imagens da vida parisiense de Man Ray acompanhado pelos artistas que lhe foram contemporâneos e por sua musa, Kiki de Montparnasse. Além de uma programação de filmes assinados por ele, intervenções como um laboratório fotográfico, com elucidações sobre as técnicas utilizadas em sua obra, marcam a interatividade com o visitante. A produção executiva é da Artepadilla.

    Para a curadora Emmanuelle de l’Ecotais, esta retrospectiva, pela primeira vez no Brasil, procura abranger a imensa e multiforme obra de Man Ray e apresenta a lenta maturação de sua obra e um panorama completo de sua criatividade. Ela ressalta que apesar de ser conhecido principalmente por sua fotografia, é também criador de objetos, realizador de filmes e um faz-tudo genial. “Após tornar-se rapidamente fotógrafo profissional, sua obra oscila, de maneira contínua, entre o trabalho de encomenda - o retrato, a moda -, de um lado, e o desejo de realizar uma ‘obra artística’, do outro. Em suas palavras, ‘o artista é um ser privilegiado capaz de livrar-se de todas as restrições sociais, cujo objetivo deveria ser alcançar a liberdade e o prazer’”.

    ALÉM DAS MAIS DE 250 OBRAS DO ARTISTA, O PÚBLICO VAI CONHECER QUATRO FILMES DE SUA AUTORIA E UM SOBRE SUA VIDA

    Man Ray, um dos maiores artistas visuais do início do século XX e expoente do movimento surrealista, ganha a exposição inédita “Man Ray em Paris” apresentada pelo Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte, a partir do dia 11 de dezembro. Além das fotografias, objetos e serigrafias, a mostra conta com quatro vídeos assinados pelo multifacetado artista, que também era cineasta, além de um filme que aborda a sua carreira. Quase 130 anos após seu nascimento, o público brasileiro poderá conferir 255 obras do artista ainda inéditas no país desenvolvidas durante os anos que viveu em Paris, entre 1921 e 1940, seu período de maior efervescência criativa. A mostra poderá ser conferida em Belo Horizonte entre 11 de dezembro de 2019 e 17 de fevereiro de 2020. A realização é da Artepadilla e o projeto conta com patrocínio do Banco do Brasil e do Ministério da Cidadania. 

    Os quatro filmes de autoria de Man Ray poderão ser vistos durante a visita na exposição. São eles: “O Retorno à Razão”/1923 (Return to Reason), “Emak Bakia”/1926 (Emak Bakia), “A Estrela do Mar”/1928 (Star of the Sea/The Starfish) e “Os Mistérios do Castelo do Dado”/1929 (The Mysteries of the Chateau of Dice). Já “Man Ray, Senhor 6 segundos” dirigido por Jean-Paul Fargier em 1998, será exibido em uma das salas localizadas no 3º andar do CCBB-BH, dentro do percurso de visitação da exposição. Abaixo, informações sobre os filmes de sua autoria a partir de texto de Emannuelle l´Ecotais, curadora da mostra, e do próprio Man Ray em sua autobiografia intitulada “Autorretrato”, publicada em 1963.

    OS FILMES

    A Estrela do Mar/1928 - Star of the Sea [ou The Starfish] –

    Filme mudo, preto e branco, 15 minutos

    Autoria: Man Ray


    Man Ray conta, em Autorretrato, que a ideia do filme lhe ocorreu durante uma noite com Robert Desnos. “No fim da refeição, ele começou a falar muito e a recitar poemas de Victor Hugo e de alguns outros poetas que não eram muito admirados pelos surrealistas. Então, tirou do bolso uma folha amarrotada: era um poema que havia escrito naquele dia. Ele o leu com sua voz clara e bem modulada, conferindo-lhe um sentido que não se poderia ter ao lê-lo silenciosamente num livro. [...] O poema de Desnos se assemelhava a um cenário de um filme, composto de 15 ou 20 versos, cada um dos quais apresentando uma imagem clara, destacada, de um lugar ou de um homem e uma mulher. Nenhuma ação dramática, porém todos os elementos necessários a uma possível ação. O poema se chamava “L’Étoile de Mer”, A Estrela do Mar. [...] Minha imaginação tinha sido estimulada pelo vinho durante nosso jantar, mas o poema me emocionou bastante. Eu o visualizei nitidamente como um filme – um

    filme surrealista”. Man Ray roda o filme em algumas semanas.



    Emak Bakia/1926 - Emak Bakia

    Filme mudo, preto e branco, 16 minutos

    Autoria: Man Ray 


    Emak Bakia quer dizer, segundo Man Ray, “deixe-me em paz”. É também o nome da casa de veraneio de Arthur Wheeler, que lhe encomenda o filme. Nessa casa, são rodadas algumas de suas cenas, como Man Ray explica em Autorretrato: uma colisão com “um rebanho de carneiros”, “um belo par de pernas dançando o Charleston, a dança da moda, o mar revolto se transformando em céu e o céu, em mar etc.” Emak Bakia é concebido segundo princípios caros ao Surrealismo: automatismo, improvisação, irracionalidade, cenas psicológicas e oníricas, falta de lógica e menosprezo pela dramaturgia.

    Man Ray relata como a ideia do final do filme lhe ocorreu: “Uma visita de meu amigo Jacques Rigaut, o dândi dos Dadás, o bem-apessoado que poderia ter sido uma estrela de cinema se o tivesse desejado, deu-me a ideia de como conclui-lo. Ele estava, como sempre, impecavelmente vestido, como suas roupas bem cortadas, chapéu Homburg escuro, colarinho engomado e gravata com uma estampa discreta. Mandei meu assistente Boiffard comprar uma dúzia de colarinhos rígidos brancos, que pus numa pequena maleta. [...] No ateliê, fiz um close-up das mãos de Rigaut abrindo a maleta, pegando os colarinhos um a um, cortando-os em dois e jogando-os no chão. (Depois, fiz uma impressão reversa dos colarinhos caindo, para que parecessem estar se levantando). Pedi a Rigaut que erguesse a parte externa de seu colarinho, mostrando a gravata em torno de seu pescoço. Ele parecia ainda mais bem vestido do que antes, mais formal. Com isso, sua participação se encerrou. Depois de ele sair, filmei algumas cenas com os colarinhos rasgados revirando, refletidos em espelhos que os deformavam; faziam piruetas e dançavam ritmicamente”. 

    O Retorno à Razão/1923 - Return to Reason

    Filme mudo, preto e branco, 3 minutos

    Autoria: Man Ray


    Man Ray conta que, certo dia, Tristan Tzara o procurou para pedir que fizesse para o dia seguinte um filme a ser exibido numa sessão Dadá que aconteceria no teatro Le Coeur à Barbe. A princípio, Man Ray não o aceitou, dizendo que até então só havia feito alguns fragmentos sem interesse, mas Tzara insistiu e inclusive sugeriu que utilizasse a técnica da rayografia. Man Ray relata muito depois, em Autorretrato, como fez esse filme: “Comprei um rolo de filme de trinta metros, fui para minha câmara escura e o cortei em pedaços curtos, alfinetando-os em minha mesa de trabalho. Em alguns pedaços, salpiquei sal e pimenta, como um cozinheiro preparando seu assado, em outros joguei ao acaso alfinetes e tachinhas; então acendi a luz branca por um ou dois segundos, como fizera com minha rayografias. [...] em seguida, apenas grudei os pedaços, acrescentando algumas cenas feitas antes com minha câmera para prolongar a projeção [...]. Cheguei ao teatro poucos minutos antes de as cortinas serem suspensas; entreguei meu filme a Tzara e lhe disse que ele tinha de apresentá-lo, pois não havia títulos, nem legendas”.

    Como sempre, essa história divertida tende a fazer com que o trabalho de Man Ray seja considerado algo trivial. Ora, nada é fortuito nessa composição animada, que alterna abstração e figuração sob um ritmo sustentado. Man Ray também relata que viu o filme pela primeira vez por ocasião de sua projeção no Le Coeur à Barbe: “O filme parecia uma tempestade de neve, com os flocos voando em todas as direções, em vez de caírem, até que subitamente se tornou um campo de margaridas, como se a neve se tivesse cristalizado em flores. Isso foi sucedido por outra cena de muitos alfinetes se entrecruzando e revolvendo numa dança epilética, e novamente uma tachinha solitária se esforçando desesperadamente para sair da tela. [...] A imagem seguinte era de um torso listrado pela luz. [...] assim que a espiral e a cartela de ovo começaram a girar na tela [...], o filme se partiu”, deflagrando um tumulto no teatro. Tipicamente um filme de vanguarda, O retorno à razão permanece atual, quando se leva em conta o que Tristan Tzara disse a seu respeito: “Era o momento de fazer alguma coisa contra as inúmeras idiotices que se viam nas telas”.

    Os Mistérios do Castelo do Dado/1929 - The Mysteries of the Chateau of Dice

    Filme mudo, preto e branco, 19 minutos

    Autoria: Man Ray


    É Charles de Noailles, grande amante da arte, quem encomenda a Man Ray um filme sobre seu castelo, construído por Robert Mallet-Stevens em Hyères. Ele deseja que Man Ray “faça algumas cenas com as instalações e as coleções de arte de seu castelo [...], bem como mostre seus convidados se divertindo no ginásio e nadando na piscina”.

    A filmagem durou quinze dias e foi feita em janeiro de 1929. Constitui a narrativa cinematográfica mais longa e ambiciosa de Man Ray, mas foi criticada como “divertimento mundano e inútil”. Nota-se nela, de fato, a paixão nascente da burguesia dos anos 1920 pelo esporte. O próprio Noailles não ficou muito contente com o resultado, que julgou “abracadábrico”, e pediu a Man Ray que refizesse o filme, mas este se recusou e abandonou definitivamente.

    Man Ray, Senhor 6 segundos

    Preto e branco, 52 minutos

    Autoria: Jean-Paul Fargier


    Este filme denso e instrutivo segue a prolífica carreira de Man Ray.

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