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    Resistência bacteriana reduz opções de tratamento e ameaça a saúde global

    Uso consciente de antibióticos e higienização correta das mãos estão entre as medidas de combate ao problema


    Bactérias podem sofrer mutações até se tornarem resistentes a antibióticos. Mas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), esse processo natural pode ocorrer de forma mais acelerada em função de alguns fatores, entre eles o uso inadequado e excessivo dessas medicações. A partir de 2050, estima-se que mais de 10 milhões de pessoas morrerão no mundo a cada ano por causa de bactérias resistentes a antibióticos, superando o número anual de óbitos por câncer, que atualmente chega a 8,2 milhões. Hoje, estima-se que o problema faça 700 mil vítimas todos os anos.

    Um novo relatório sobre o padrão de consumo global de antibióticos em 65 países, divulgado recentemente pela OMS, indica que o Brasil é um dos maiores consumidores desse tipo de medicamento no mundo, superando a média de consumo da Europa e de todos os países das Américas analisados, como Bolívia, Canadá e Peru. A taxa chega a quase 23 doses diárias de antibióticos a cada mil habitantes, o que evidencia o desafio que o consumo consciente desses produtos representa para o País.

    KPC: uma ameaça nacional

    Em 2010, dezenas de pessoas morreram no Brasil após surtos da bactéria resistente Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC). Em 2017, novos casos foram registrados, em diferentes Estados: São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso e Bahia. O primeiro relato de KPC no Brasil ocorreu em 2006, no Recife, porém, estudos posteriores identificaram episódios isolados, provenientes de 2005, em São Paulo e Florianópolis. Entre 2009 e 2010, houve um grande aumento no número de casos, especialmente em São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais.

    Embora os pacientes em ambiente hospitalar estejam mais expostos a esse problema, bactérias multirresistentes já foram encontradas até mesmo em praias brasileiras, bem como em lagoas e rios, como o Carioca, que atravessa vários bairros do Rio de Janeiro e deságua na Praia do Flamengo.

    Um estudo apresentado durante o XX Congresso Brasileiro de Infectologia, em 2018, também reforça a importância de novas estratégias de combate à KPC no País. Foram analisadas 860 amostras da bactéria Klebsiella pneumoniae colhidas em sete hospitais do Rio de Janeiro, entre os anos de 2015 e 2017. Em 232 amostras, mais de um quarto do total, foram encontradas bactérias produtoras de carbapenemase, enzima que confere resistência a antibióticos nesses microrganismos. Além disso, 61 também eram resistentes à colistina, um antibiótico utilizado para infecções graves relacionadas às bactérias que produzem carbapenemase.

    Um outro estudo científico, envolvendo 3085 amostras de Klebsiella pneumoniae coletadas de pacientes de dez hospitais privados da Grande São Paulo, aponta que a resistência entre esses micro-organismos tem se mostrado mais frequente nos últimos anos. O trabalho, que analisou amostras de 2011 a 2015, mostra que a resistência relacionada à enzima carbapenemase subiu de 6,8% para 35,5% no período investigado.

    Fortes e resistentes

    Bactérias como a Klebsiella pneumoniae são classificadas como Gram-negativas. 

    Esses micro-organismos apresentam uma parede celular reforçada, uma membrana externa que funciona como barreira, dificultando a ação dos medicamentos. Por isso, são mais resistentes e complicadas de serem tratadas, o que faz com que predominem entre os casos de infecção relacionados à assistência à saúde, afirma a diretora médica da Pfizer Brasil, Márjori Dulcine.

    O enfrentamento do problema passa por uma estratégia integrada que contempla, além do estímulo ao uso racional dos antibióticos, também medidas como o diagnóstico microbiológico rápido e assertivo dos patógenos, como forma de otimizar o tratamento do paciente e reduzir prescrições desnecessárias. O manejo adequado dessas medicações na agropecuária e o incentivo ao descarte correto de resíduos medicamentosos são pilares adicionais no combate a esse problema.

    Nesse cenário, garantir o saneamento básico adequado à população e estimular o investimento no desenvolvimento de novos medicamentos também são elementos fundamentais. 

    Não podemos esquecer, ainda, o papel essencial da prevenção de doenças por meio da vacinação e de simples hábitos de higiene, como a lavagem adequada das mãos, complementa a médica.

    Tratamento pioneiro

    Primeiro antibiótico específico para o combate à bactéria multirresistente Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase (KPC), o medicamento Torgena chegou recentemente ao mercado nacional. Licenciada nos Estados Unidos desde 2015, com o nome Avycaz, e disponível como Zavicefta a partir de 2016 em países da União Europeia, a combinação ceftazidima + avibactam foi aprovada no Brasil no ano passado.

    A medicação também é eficaz contra outros dois grupos de bactérias resistentes classificadas como críticas para a saúde pública para a Pesquisa e o Desenvolvimento (P&D) de novos medicamentos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS): a Pseudomonas aeruginosa e as Enterobactérias produtoras de ESBL (β-lactamases de espectro estendido).

    De administração hospitalar, Torgena é indicado para o tratamento da infecção intra-abdominal complicada (IIAc) e de trato urinário complicada (ITUc), incluindo a pielonefrite, uma condição potencialmente grave que afeta os rins. A terapia também é indicada para o tratamento de pneumonia adquirida no hospital (PAH) e para aquelas pneumonias associadas à ventilação mecânica (PAV), conforme a bula da medicação.

    Segurança e eficácia

    A ceftazidima é uma cefalosporina de terceira geração que inibe a síntese de uma estrutura (peptidoglicanos) responsável pela rigidez da parede celular das bactérias, componente que protege esses patógenos. Já o avibactam é um novo inibidor da betalactamase não β-lactâmico. Ele age em beta-lactamases, que são enzimas que conferem resistência a algumas bactérias e que podem provocar a degradação da ceftazidima.

    Em seu programa de desenvolvimento clínico, a combinação ceftazidima-avibactam se mostrou tão eficaz quanto os antibióticos carbapenêmicos no tratamento de infecções graves por bactérias Gram-negativas. Os estudos analisaram a eficácia de ceftazidima-avibactam em pacientes com infecções intra-abdominais complicadas (IIAc), pneumonia bacteriana adquirida em hospital (PAH) e infecções bacterianas do trato urinário (ITUs) complicadas.

    Ao longo do programa de desenvolvimento clínico, não foram identificados efeitos colaterais graves ou inesperados. Atualmente, outro produto com moléculas associadas ao avibactam integra o pipeline da Pfizer nesse segmento. Já no portfólio da área, um dos destaques é o antibiótico Zinforo (ceftarolina). Trata-se da primeira cefalosporina com atividade anti-MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina).

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